amores expresos, blog do Daniel

Dé Sathairn 13 Deireadh Fómhair 2007

Diário da chuva em Baile Átha Cliath: Três

Tríonóide [quinta e sexta-feira, 04-05/10/07]
Onde o narrador recua dois dias na linha de tempo e inclui comentários vindos direto do futuro: Não-linearidade! Pós-modernismo! Fragmentação! Hiperrealidade! Foucault! Deleuze! Virilio! Juremir Machado da Silva! Fim do mundo! Nenhuma nota de rodapé! Colegiais católicas!

Hmm. Peraí, falta alguma coisa. Ah:



Pronto. Metanarrativa!

***


Nos dias supracitados, não choveu em Dublin.

Hoje é dia 13 e ainda não vi nem sinal de chuva. Chegou a ficar nublado, mas foi pura enganação. Anda meio quente, também. Dia desses saí de casa mais agasalhado e comecei a suar depois de duas horas caminhando. Hm.

Deu uma chuviscada em Howth num dos dias que passei lá, mas não usei nenhum dos meus três guarda-chuvas. Quando a agüinha caiu, meio preguiçosa, eu estava dentro de um pub, ocupado em anotar coisas e enxugar pints de Bullmers.

Mas estou me atropelando: Howth é o assunto do próximo capítulo deste diário. No que diz respeito a este, Dublin continua seca. Bem sequinha.


***



Desculpem o sumiço, mas é cada vez mais complicado arranjar o que dizer no blog. Tenho mais dois posts pela metade, mas me falta assunto para que fiquem mais carnudos. Não que nada esteja acontecendo, muito pelo contrário. Mas quase todos esses incidentes, observações, comentários e gracinhas eu prefiro guardar para o livro. Certas coisas só podem ser transformadas em texto uma vez, ou correm o risco de se tornarem falsas demais. Espero que entendam.


***



Um homem sério jamais descumpre promessas feitas em notas de rodapé. Não sou exatamente sério, mas por nutrir um grande respeito por notas de rodapé, arrisco um resumo impreciso da geografia dublinense:

Por muito tempo, a cidade de Dublin esteve circunscrita a uma área delimitada por dois canais, partida ao meio pelo rio Liffey (squeezing the life out of the liffey, esse mesmo). Na parte sul, habitada de forma intermitente há dois mil anos, surgiram no século IX os primeiros assentamentos - um viking, outro gaélico - que originaram a cidade moderna. Quando os normandos conquistaram a cidade, quatro séculos depois, vários moradores de ascendência viking resolveram cruzar o Liffey e estabelecer comunidades independentes ao norte. Com o passar dos séculos, o norte também passou a abrigar esconderijos de piratas, asilos de leprosos, cemitérios de enjeitados sociais e, com o domínio inglês no século XVI e a transformação de Dublin em cidade colonial de elite protestante, parte considerável da população católica.

No século XVIII, diversas regiões de Dublin que ainda retinham um traçado medieval foram postas abaixo e reconstruídas em estilo contemporâneo. Foi nessa época que a elite dublinense tentou mudar o eixo da cidade para o norte. Largas avenidas foram abertas, praças foram construídas, pontes surgiram no Liffey - antes disso a passagem era feita por balsas - e ergueram-se casas e mais casas em estilo Georgiano. Esse novo cenário não durou, pois sem o Liffey para servir de obstáculo a população mais pobre começou a passear livremente pelas ruas. O pessoal endinheirado não apreciou muito essa idéia e voltou correndo para o sul, não sem antes transformar as casas em prédios de apartamentos que logo se tornaram cortiços. Assim, se estabeleceu definitivamente certa rivalidade entre um lado norte pragmático e working-class e um lado sul afetado e posh.

Foi nesse lado centro-norte dilapidado que James Joyce e Stephen Dedalus passaram parte da vida. Em Gardiner Place ainda existe o Belvedere College, escola jesuíta onde estudaram autor e personagem. É também em Gardiner Place, a três quadras de Eccles Street, que Dedalus e Leopold Bloom viram uma de suas últimas esquinas a caminho da casa de Bloom no capítulo Ithaca de "Ulysses". E é também em Gardiner Place, numa dessas antigas casas Georgianas, que estou baseado em Dublin. Olá.



Hoje Dublin se espraiou, como diria Olivio Dutra, e não está mais limitada pelos canais. O norte da cidade inclui diversos subúrbios com níveis diferentes de salubridade: uns são bucólicos e aprazíveis, com ruas arborizadas e casinhas que parecem de brinquedo. Outros não passam de coleções de blocos de apartamentos que lembram ruínas, mas devem ter a mesma aparência desde a inauguração. É um cenário de ex-república soviética. Dizem que num desses subúrbios pós-apocalípticos se criam cavalos irlandeses no meio do concreto. Se for verdade e eu descobrir onde é, hei de explorar.

Aqui pela região norte do centro vive uma multidão de refugiados e imigrantes, acompanhados por vários bed & breafkast, três ou quatro strip clubs, prédios reformados, muito comércio e alguns favelões verticais. Mas a região está sendo revitalizada. Entre os junkies deitados nos cantos da Capel Street, entre as famílias inteiras enchendo a cara em Mountjoy Square, entre as crianças satânicas da Summerhill Parade atirando pedras em tudo que se move, entre as pilhas de lixo que não é recolhido entre quinta e terça-feira e acaba espalhado na calçada, entre os Irish travellers que zanzam pela Parnell Street atrás de esmolas, existem vários canteiros de obras. Dizem que a região não está mais tão perigosa quanto era há alguns anos. Acredito.





***


And now for something completely different.




Passei dois dias inteiros fuçando no Trinity College, uma das universidades mais antigas do mundo. Foi fundada pela rainha Elizabeth I no século XVI, para evitar que os protestantes tivessem que deixar Dublin para serem educados. Para obter o espaço necessário para o campus, mandou para o espaço um mosteiro católico bem-localizado.

Jonathan Swift foi reitor de Trinity, onde estudaram Oscar Wilde e Samuel Beckett. Também foi lá que, segundo a biografia na edição em PDF do meu primeiro livre, obtive em 1998 meu PhD em literatura anglo-saxã. Hoje, além de irlandeses endiheirados e um punhado de estrangeiros, estuda lá uma multidão de britânicos que - pelo menos é o que se diz - não conseguiram ser aceitos em Oxford ou Cambridge.




Na primeira vez que cruzei os arcos da vetusta instituição, dei de cara com um burburinho inesperado. Era a semana dos calouros. Dúzias e mais dúzias de alunos e barraquinhas tomavam o pátio da Parliament Square. Diversos clubes e sociedades estudantis se estapeavam em busca de membros. Ao passar pela barraquinha da Trinity Capoeira Society senti vontade de dar uma gingadinha, mas me contive. Por algum motivo, era importante manter incógnita minha brasilidade efusiva.

Toda essa movimentação foi um bom sinal para a história macarrônica que já começava a se emaranhar no meu cérebro. Que parte do livro se passaria no Trinity College eu já sabia, nem que fosse apenas por força da minha obsessão adolescente pelo lugar (e pela Irlanda inteira). Só ainda não tinha muita idéia de como isso ia acontecer, e a Freshers' Week resolveu o meu problema. É durante essa semana que o pessoal da Alles ist vergängliche vai fazer sua primeira aparição. Mais informações sobre a AIV quando o livro for publicado. Ainda vai levar um tempinho. Tenham fé.




***


E logo que encerrei minha primeira visita ao Trinity fiz meu primeiro amigo em Dublin: outro sinal.

O nome dele é Edgar. Fala, Edgar.

(...)

Edgar?





Tá, deixa assim. Como eu e o Daniel Galera, Edgar é um tipo caladão.


***


Good afternoon, sir. I don't mean to be cheeky. Well, I'm homeless. I have no home. Can you please spare some money?

E assim teve início minha primeira interação com os junkies que surgem de repente em todos os lados do centro de Dublin, ao norte ou ao sul do Liffey. Já tinha visto alguns sentados na rua, quase sempre com o rosto escondido pelo capuz do moleton, estendendo copos de papel vazios de moedas. Esse me apareceu no parque St. Stephen's Green, onde resolvi entrar para comer meu almoço. Levemente ruivo, com a fala lenta e pastosa e um abrigo esportivo azul, pareceria mais saudável e limpo que boa parte da população brasileira se não fossem os olhos de personagem de desenho animado.

Levou 20 centavos de Euro. Fez cara feia. Tomara que morra logo.


***



Tem dois barbeiros aqui perto de casa. Um é russo, ou pelo menos de algum país que usa o alfabeto cirílico. Pode ser de Kalmykia, talvez. Hmm. Outro sinal. Ainda não o avistei com meus quatrolhos, apenas a placa me indica sua existência. Não tenho dúvidas que é uma visão transcendente. Passo por lá todo dia a caminho de qualquer lugar, então acabarei conhecendo o cidadão e não conversando com ele. Quanto ao outro, veio de algum lugar do subcontinente indiano. Paquistanês, imagino. Barba espessa e perfeitamente aparada, cabelo lambido, sobrancelhas desenhadas, camisa impecável. Sorridente.

É muito triste ter raspado a cabeça com máquina zero antes de deixar o Brasil.


***



Olhei pela janela agora e vi Miles Davis, mas não deu tempo de pegar a câmera.


***



Perambulando nas cercanias da Capel Street, encontrei os primeiros Irish travellers, ou Pavees. Na verdade não foram os primeiros, mas como na O'Connell eu só tinha visto mulheres, ainda não tinha certeza da identificação positiva. Mas ao ver o primeiro sujeito de chapéu, com um bigodão de fazer inveja a Nietzsche, nitidamente usando as mesmas roupas desde 1962, não podia mais duvidar.

Para quem assistiu ao filme Snatch, basta lembrar do personagem de Brad Pitt. Não, não é um cigano. Aquilo é uma representação caricata dos travellers, um grupo nômade muito antigo presente tanto na Irlanda quanto na ilha vizinha. Têm pontos em comum com os ciganos - vivem à parte da sociedade, não têm residência fixa, mantêm sua própria cultura e idioma, têm fama de ladrões e vagabundos etc - mas são de outra etnia. Apesar de sua origem ser controversa, tudo indica que são autóctones. Até o idioma se origina do gaélico irlandês.

Estou obcecado por incluir um personagem Pavee no livro. Mesmo difíceis de observar - assim que percebem que você está olhando para eles, correm na sua direção para pedir alguma coisa falando muito, muito rápido e não desistem até você sair correndo - eles são fascinantes demais para serem deixados de fora. Mas ainda não sei como.

Descobrirei.


***



Tenho almoçado ou jantado com alguma freqüência no restaurante China House da Parnell Street. Há muitos restaurantes orientais nessa região: chineses, coreanos, tailandeses. Já comi em dois deles, mas não achei grande coisa. Muita gordura, pouco sabor, garçons antipáticos. Na China House é diferente, e melhor: ao contrário dos outros, lá sou sempre o único cliente ocidental. Talvez porque iguarias como baby octopus frito com molho de feijão preto fermentado não sejam atrativas pra todo mundo, mas hey, eu gosto de aventura.


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Momento administrativo
Agradeço aos gloriosos Dantessaço e Carmencita por apontarem os erros de revisão no post anterior (a propósito, vocês não perceberam um erro de concordância no segundo post e um erro factual no terceiro, na parte do mala de bengala; passem no RH agora mesmo, sua relação com esta empresa termina aqui). Mas eu já tinha percebido esses problemas. Já me torturei, já culpei meu transtorno de descompasso bilíngüe, mas no fundo não existe desculpa. Mesmo rubro de vergonha, não corrigirei.

Motivo? Escrevo os posts numa condição mui precária. Meu velho notebook pára de funcionar quando bem entende. Às vezes resolve bloquear grupos aleatórios de teclas. Nunca são as mesmas. Não faz sentido algum. Preciso deixar o bicho sozinho num canto, resolvendo sozinho seus problemas existenciais. Quando ele deixa o teclado em paz, o ponteiro do mouse começa a flutuar a esmo pela tela ou estacionar num dos quatro cantos, resistindo a qualquer tentativa de controle. Faço de tudo para ele se acalmar, uso de paciência e firmeza, mas nem sempre funciona. Sei que vai soar ridículo, mas lidar com tanta inconstância enquanto se tenta escrever um texto gera um desgaste emocional considerável.

Hmm. Relendo esse parágrafo, suspeito que meu notebook é mulher.

Mas enfim: quando termino um post, não mexo mais. Nem releio, para não sofrer ao tentar corrigir alguma coisa e ter que enfrentar a rebeldia de um ponteiro de mouse. Minha opção seria escrever tudo à mão e digitar o post direto no lugar onde acesso a rede mundial de computadores, a chamada internet. Mas isso nunca vai acontecer. Nunca. Mais fácil o dedo do Lula crescer de novo. Não tenho envergadura moral para digitar um post rodeado de adolescentes peidorreiros jogando World of Warcraft e gente berrando no Skype em todos os idiomas indo-europeus. Isso sem falar nos acentos. Assim sendo, ou levo o post prontinho no pendrive ou nada feito.

A propósito, fiz uns videozinhos com planos de mandar pro YouTube e colocar no blog, mas tentar editar vídeos com este computador é uma piada. Simplesmente não dá. Enfim, façam como eu: tolerem, por favor. Prometo não abusar, ao contrário do Yorick.

(Por que diabos fui dar logo esse nome pro notebook? Em resumo, digamos que se trata do personagem mais cadáver da história da literatura: apud SHAKESPEARE, William. Hamlet; STERNE, Laurence. Tristram Shandy. Sério, mais pateta que eu não há, não houve, nunca haverá).


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De resto, ruivas.


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